28 de maio de 2009
“….Se você ouvisse as vozes que ouço à noite
acharia tudo o que eu faço natural…”
Era uma casa alta sustentada por galhos secos de uma frondosa árvore. Era uma menina arguta que já guardava em si todas as perguntas do mundo. Era madrugada. Acordou assustada com os sussurros que pareciam vir da cozinha. Continuou imovel imaginando quem diabos estaria ali àquela hora e como poderia ter entrado se ela mesma tinha certeza de que conferira todas as trancas horas antes. Então os sussurros se tornaram mais audíveis. As vozes pareciam discordar de algo. A menina decidira, corajosa que era, ir até a cozinha e levou consigo uma tesoura que havia em seu quarto. “É sempre bom estar armada quando não se sabe o que pode aparecer pelo caminho”, pensou lá com seus botões. As luzes estavam todas apagadas e quanto mais ela tateava paredes e quadros , mais alto percebia o tom das vozes em desenfreada discussão. Finalmente chegou à cozinha e, num sopetão, acendeu a luz. Lá nada havia. Sua cabeça estava tomada por interrogações. “De onde vem esse barulho todo, afinal? Quem ou o que gritava tanto?”, perguntava a si mesma. As vozes mantinham a mesma frequencia e ela, corajosa que era, correra até o banheiro a fim de conter a briga que parecia acontecer dentro de sua casa. No entanto, lá nada havia. Sentou ao lado do vaso sanitário e continuou ali por um longo tempo. Ouvia os argumentos de um lado, os rebates do outro. Ora dava razão para uma voz, ora dava razão pra outra. E estava já tão entretida com aquilo tudo que nem percebia que as vozes em desordem e toda aquela algazarra estavam em “acontecência” dentro dela mesma. Era uma casa alta sustentada por galhos de uma frondosa árvore. Era uma menina arguta que já travava em si todas as lutas do mundo.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Humberto Gessinger
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore
7 de maio de 2009
“…E se eu fosse o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?…”
E lá estava ela, pensando só, ali com seus botões. Tinha mania de se perguntar. E perguntava. Mas nem sempre se respondia. Vai saber porque diabos se perguntava tanto sobre tantas coisas. Talvez porque já tivesse perguntado pra muita gente por aí. Talvez, muita gente por aí, não tivesse conseguido responder tanto sobre tantas coisas. Gostava de se refugiar nas ramificações frondosas de seus próprios pensamentos. A janela aberta sugeria paisagens de outras árvores, rios, vilarejos, cidades…grandes e pequenas. E assim, se vendo, se perguntava quem haveria de ser ela se acaso tivesse escolhido a primeira cidade, a barra da saia, a comida posta. E se tivesse ela escolhido o casamento? Se tivesse voltado atrás? Se tivesse reagido certa vez? Quem haveria de ser ela? Ela mesma se respondia mas depois duvidava de suas próprias explicações. Gostaria de voltar no tempo e mudar um instante qualquer de sua vida. Se ainda assim, a sua história continuasse a ser a mesma, da menina e de sua casa na árvore, descobriria logo que nunca teve escolha. Se acontecesse então de outro jeito, um tanto assim diferente, e não houvesse mais nem menina e nem casa na árvore, acabaria por entender que, cada escolha que faz, altera ruas, casas, sonhos e verbos da sua história. E das histórias de muita gente por aí. E assim passava o tempo – sempre pra frente, nunca pra trás – sempre se perguntando, se respondendo, se duvidando. E se perguntando de novo, até ter certeza. Gostava de se refugiar nas ramificações frondosas de seus próprios pensamentos. E ali ficava, pensando só, lá com seus botões, se em algum outro lugar, no tempo ou no espaço, haveria ou não de haver, alguém como ela assim, sempre a se perguntar, em meio a tantos “se”, quem haveria de ser….
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Marcelo Camelo
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore
18 de abril de 2009
“…And did it my way…”
E na casa da árvore entretinha-se imaginando a preocupação de todos ao darem por seu sumiço. Com o tempo se acostumariam à idéia de viver sem a presença dela e, sem dúvida, se sentiriam aliviados. Não passariam mais pelo constrangimento de ter que justificar seus modos selvagens, sua costumeira clausura, seu silêncio telepático e aquela velha mania de transformar a vida em teorema. E na casa da árvore veria os anos caminharem lentos no compasso de cada dia de sol, eclipse e tempestade. E cravaria a sorte no tronco espesso que sustentaria seu mundo. E na casa da árvore fabricaria histórias frondosas das pessoas que habitavam as cavernas de seu coração. Plantaria as sementes na certeza de que alguém, algum dia, colheria seus frutos. Aos domingos tomaria chá ouvindo Sinatra num radinho de pilha carregando no olhar a certeza de ter feito as coisas do seu jeito. E já não seria mais necessário contemporizar seus modos bravios, sua reclusão habitual e aquela velha mania de transformar a morte em teorema.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Frank Sinatra
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore