Além das Sombras!

4 de outubro de 2009

Viver à sombra de uma frondosa arvore foi a maneira que encontrei de me manter à salvo da luz do dia. Minha casa é minha zona de conforto, é o lugar onde posso ser quem sou e brincar de ser quem não sou, de vez em quando, sorrindo pro espelho. E ninguém precisa saber o que faço quando estou apenas comigo, quando danço de calcinha pelo corredor ou quando deito com o rosto colado no chão do banheiro. Escolhi viver à sombra por não poder prever o que a minha própria luz poderia atrair para mim. A gente vai envelhecendo junto com os galhos das árvores que nos sustentam e ficamos cada vez mais sós. Temos medo de estender a mão, de levantar, de seguir em frente. E só nos resta viver à sombra dos nossos sonhos, de nossos mundos imaginários, de nossas zonas de conforto. E acordamos, todos os dias, entediados com a perspectiva de mais vinte e quatro horas previsíveis cheias de contas a pagar, horários a cumprir e faixas de pedestre para atravessar. E andamos pelas ruas, acompanhados de nossas próprias sombras, sem sequer olhar pros lados, como robôs de algum filme futurista e não ousamos sair do script que nós mesmos escolhemos encenar. Porém, tudo o que desejamos é que alguém, em algum momento, esbarre em nós, derrube as certezas que carregamos e nos ajude a recolher o que ficou caído no chão. Sonhamos que alguém, algum dia, irá realmente reparar em quem somos para além de nossas zonas de conforto, que unicamente se importará conosco, por saber que para além das sombras que exibimos, existem as luzes que insistimos em esconder.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional

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Uma pá de cao!

24 de setembro de 2009

Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O controle remoto da tv já não atende mais ao comando dos dedos cansados. Os pés ja não sentem a terra firme. O estomago chora os sonhos embalados em sacos de lixo. Para cada martelada, um olhar ao chão. Para cada céu, um inferno à altura. E cada espelho relfete o monstro que lhe convém. Cada um com o seu, cada um na sua. Canta a furadeira enquanto falo do que dói em controversa sinfonia. Meus medos me procuram sete vezes ao dia. Quase sempre cedo. Quase sempre tardo. Meu ventre é uma caverna distante cheia de ecos do além. A terra firme já não sente mais os pés cansados. Para cada lágrima, uma pá de cao. Para cada escavação, uma escora no lugar. Tudo isso acontecendo aqui dentro e tanto silêncio lá fora. Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O apresentador entrevista as pessoas em suas festas particulares. Estarão elas em obras também? Como conseguem andar por aí impunemente? Como trocam de vestido enquanto sangram os sete dias da semana? Me divirto em frente à tv. Imagino as pessoas e seus infernos particulares. Cada um no seu, cada um na sua. Quase sempre sede, quase sempre tarde. Para cada um, um monstro. E para cada sonho, um saco de lixo que lhe convém.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.

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Boa noite, Mundo!

10 de setembro de 2009

Permaneço de pé aqui dentro. Caminho pela casa como um bicho estranho acuado entre quatro paredes de uma prisão que eu mesma criei. E dói muito não ser orgulho para ninguém , dói muito chegar à velhice sem ter a lembrança de um dia ter sido jovem, dói olhar os amigos bem-sucedidos, dói não ler os jornais todos os dias, dói não ser boa em nada, dói viver à sombra de um talento fingido, dói ser a farsa do dia-a-dia, dói ser quem sou, dói ver os livros nunca dantes folheados na estante da sala, dói a sensação de praticamente não existir, de estar morta em vida, de apenas vegetar num corpo alheio aos desejos que finjo sentir. A máscara pesa no rosto, o espelho reflete a feiúra óbvia e o relógio planta cabelos brancos num retrato fiel da minha paisagem. É penoso saber que não posso confiar em nada que vá além de mim mesma, é penoso saber que só posso acreditar no que posso tocar e que, talvez, até isso não seja real. O mundo que agora dorme lá fora pode ser apenas uma armadilha, uma realidade paralela ou o sonho de alguém em Marte. É penoso e dói ser quem sou, me perguntar o que me pergunto, chegar às conclusões que chego. E é por isso que, enquanto dorme o mundo lá fora, eu permaneço de pé aqui dentro.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.

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Vento Vilão!

23 de agosto de 2009

O vento de fora agora cismou de soprar aqui dentro. Revira as coisas atrás da estante. Escancara portas e janelas. E me empurra. Pra fora. Pra longe daqui, pra perto daí. Seguro firme. Cravo as unhas nas árvores mais frondosas. Sangro até fincar. Lá fora não é ambiente pra mim. Mas ele insiste, o brincalhão. Sopra como se me fizesse um favor. Entorna canções, lembranças e lugares de ontem. Cacarecos que ensaio me desfazer faz tempo. E nunca me desfaço. Nunca me satisfaço. E disfarço…enquanto o vento me empurra pra fora do mundo ou sei lá pra onde. Nada fica firme por muito tempo. Finco até sangrar. Ficar é uma escolha que eu fiz faz tempo. Nada mais me cabe a não ser a minha casa. Casinha. Pequena. Caixinha em que me encolho. Me encaixo. Me recolho e me acho. Não entendo esse sopro todo, essa ventania que me invade. O grande amor ja passou por aqui, já parou, já ficou…e já foi. Não segurei firme, nem finquei unhas, apenas sangrei. E deixei ir. O vento levou sei lá pra onde. O que mais quer levar embora de mim agora, seu vento vilão? Pra quê tanto bagunçar? Deixe o silêncio e a paz em cima da mesa. E as coisas atrás da estante, se quiser, pode levar. Só me deixe a sós comigo, por mais algum tempo. Afinal, ainda me resto. Perto daqui e bem longe daí. E quando cismar de soprar aqui dentro de novo, pense duas vezes. E vá soprar em outro terreiro, faz favor.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.

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Tanto Faz!

8 de agosto de 2009

O vento me empurra pra fora do mundo com tanta força que chega a bater as janelas de casa. Mas pareço ficar. Mesmo sabendo que minha existência não fará a menor diferença. À tudo respondo que tanto faz. Escolhas são nocivas. Escolhas sempre chegam acompanhadas de expectativas. E para cada expectativa, uma decepção à altura. As pessoas criam seus infernos particulares à medida dos anos. Alimentam seus bichos interiores, preenchem seus sacos de lixo…até não poder mais. E depois não conseguem se achar em seus próprios espelhos. Parecem figuras alteradas por uma lente de aumento, distorcidas na forma e na cor. Amanhecem transmutadas em monstros de quatro olhos. E não sabem porquê. Nem querem saber. Estão sempre atrasadas. Correndo de lá pra cá. O relógio lhes mantém ocupadas grande parte do dia. A pressa é uma engenhosa invenção da humanidade. As pessoas contam as horas para se distrair do que lhes é irremediável. E me pergunto com freqüência: a quem interessa? a quem o que eu penso interessa? a quem a minha vida interessa? À tudo respondo que tanto faz. Me nego a fazer mais escolhas. Eu sempre erro. E não sei porquê. Nem quero saber. A pressa me acompanha grande parte do dia, o problema é que, à noite, ela adormece e eu não. O vento me empurra pra fora do mundo com tanta força que chega a bater as janelas de casa. Mas, ainda assim, teimo em ficar.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.

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Travesseiros Imaginários!

23 de julho de 2009

“…Não procure outras pessoas no espelho…”


Todo dia eu faço uma aposta. As pessoas nadam em suas próprias mentiras. Passam por cima do sol para angariar o que lhes é aprazível. E seguem insones. As cabeças cansadas já não cabem mais nos travesseiros de costume. As palpebras pesam à medida dos anos. As pessoas seguem pisando em seus chãos, em seus céus, em seus sóis e em si mesmas. E se martirizam a cada segredo guardado na estante sustentada em madeira e remorso. As pessoas passam a vida tentando ficar impunes enquanto eu almejo apenas ficar imune a todas elas. E quando já não há mais espaço entre madeira e remorso, as pessoas tentam outros travesseiros que abracem generosamente suas cabeças cheias de culpa. E se aproximam umas das outras em busca de perdão, em busca de algo que as leve à redenção. E seguem cegas e insones. À procura de seus travesseiros imaginários. E adoecem envenenadas por seus próprios segredos. Todo dia eu faço uma aposta. Enquanto as pessoas morrem afogadas na piscina de mentiras que cultivam em seus quintais. As cabeças são grandes demais para as fôrmas dos travesseiros vendidos nas lojas. E pesam. Pesam a medida dos anos. E quando estendo a mão a alguém é quase sempre um lapso. Cada aceno em direção ao outro é risco de queda livre. E sempre aceno. E sempre despenco. Mas meu consolo é minha estante. Sustentada em madeira e fé. E meu travesseiro tem a medida de minha cabeça: leve. E ainda assim, todo dia eu faço uma aposta. E todo dia eu perco.

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*Autoria:  Maíra Viana

*Citação em Aspas: Humberto Gessinger

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.


Sombra em Excelência!

4 de julho de 2009

“…Parecia que era minha aquela solidão…”


Chegava em casa e dava de cara com a solidão. Esparramada no sofá, impondo-lhe canais de tv, ocupando os espaços da sala, incomodando o quanto podia. Aquele convívio estava ficando impossível. Alguém ia ter que sair. A casa já era muito pequena. Era muita audácia tomar para si a cozinha, o quarto e o banheiro. Bagunceira, barulhenta, folgada era a solidão. E comilona também. Tomava os iogurtes todos de uma vez. Mal-educada ainda arrotava. A solidão era mais que uma hóspede, era sua sombra em excelência. Do alto da jaboticabeira vivia a escritora, a questionar lá com seus botões, que diabo de escolha havia feito. Bastava pensar em sair de casa, pronto, tudo nela se derramava em motivos para não fazê-lo. Não ia ao teatro porque o dia se fazia quente, não visitava parentes para não lhes dar trabalho, não frequentava festas ja que, claro, não saberia o que vestir. Seu pensamento nem atravessava as portas que dão pra rua, que dirá seus pés. Resignada, tentava apenas se acomodar no pouco espaço que ainda lhe restava. Sua solidão era a pior colega de quarto que já tivera.

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*Autoria:  Maíra Viana

*Citação em Aspas:  Humberto Gessinger

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.


Cama para Solidão!

22 de junho de 2009

“…Se o mundo espera então eu faço…”


Escolhera viver só. Achava que estaria melhor consigo mesma do que com alguém que estivesse ali somente para passar o tempo. Acreditava na ciência, na lógica. Buscava um sentido. Pois tudo o que acontecia tinha de ter um porquê, mesmo que para ela fosse dificil compreender qual. Era cética. E mais: pagã, atéia e só. Era forte. Era fraca. Dependia. Do dia, dos porquês que encontrava pelo caminho, das contas que tinha a pagar e, principalmente, do ciclo menstrual que insistia em desregular o seu senso-de-humor. Vez ou outra, abria as janelas de casa e tinha uma dimensão maior de sua história. Via seu espaço e a mata ao redor: aquele silêncio fazendo cama para solidão; a certeza da segurança que vai além de chaves e fechaduras; a desesperança de qualquer visita ou mágoa sem aviso prévio. Assim era a menina: excessivamente só. Insistia na solidão, afinal, era muito mais tranquila a sobrevivência longe do convívio com as pessoas do mundo. Evitava a intimidade. Encontrava em curtas saudações uma maneira fácil e prática de lidar com as situações cotidianas. Por isso, esforçava-se ao esboçar expressões como: “Boa Tarde”, “Como Vai?” e “Até logo”. E era só. Nos momentos de crise, sentia-se melhor ao constatar que poderia, a qualquer momento, optar pelo abandono de si mesma. Fazia-se livre para se reinventar como melhor lhe conviesse. Sentia-se sorteada por ter direito às escolhas da vida e, dentre tantas, talvez a mais acertada tenha sido essa. Escolhera viver só. Achava mesmo que estaria melhor consigo própria do que com alguem que estivesse ali somente para ocupar um lugar no espaço.

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*Autoria:  Maíra Viana

*Citação em Aspas:  Nô Stopa

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.


A Imensa Corda da Vida!

8 de junho de 2009

“…Quem sustenta o peso do mundo? Quem gira a roda da vida?…”


Do alto da jaboticabeira, percebia o dia passar por sua janela acenando, de passagem, quase sempre alheio à transitoriedade da vida dentro daquela casa. E ele sempre passava, o dia. E vez por outra acenava. Mas nunca encontrava tempo para um café que fosse. Por mais que ela almejasse um “cadinho” de dia, ele nunca podia parar. Lembrava da época da escola, do recreio, quando as outras meninas giravam uma imensa corda com destreza, forçando quem quisesse brincar, a entrar já pulando, sem pestanejar. Ficava sempre de canto a espiar. Queria mas não podia. Pensava, pensava…e deixava pra lá. Assim era também com o dia, que sempre passava. Acenava mas não entrava. Fazia menção para que ela saísse e se juntasse a ele em sua peregrinação. Andariam em comitiva mundo afora: ele, ela e mais um punhado de horas pedalando sem parar. Recusava o convite e permanecia de canto, sempre a espiar. Queria, mas não podia. Precisava ao menos ter tempo para pestanejar. O risco de esbarrar na imensa corda da vida era grande. Que faria ela se caísse e ralasse o joelho? O dia não voltaria para acudi-la. As horas ririam de seu embaraço. E a corda da vida não hesitaria em lhe oferecer, a cada giro, um novo enroscar de pernas. Do alto da jaboticabeira, pensava. Pensava…e deixava pra lá.

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*Autora:  Maíra Viana

*Citação em Aspas: Sagrado Coração da Terra

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.


Todas as perguntas do mundo!

28 de maio de 2009

“….Se você ouvisse as vozes que ouço à noite
acharia tudo o que eu faço natural…”


Era uma casa alta sustentada por galhos secos de uma frondosa árvore. Era uma menina arguta que já guardava em si todas as perguntas do mundo. Era madrugada. Acordou assustada com os sussurros que pareciam vir da cozinha. Continuou imovel imaginando quem diabos estaria ali àquela hora e como poderia ter entrado se ela mesma tinha certeza de que conferira todas as trancas horas antes. Então os sussurros se tornaram mais audíveis. As vozes pareciam discordar de algo. A menina decidira, corajosa que era, ir até a cozinha e levou consigo uma tesoura que havia em seu quarto. “É sempre bom estar armada quando não se sabe o que pode aparecer pelo caminho”, pensou lá com seus botões. As luzes estavam todas apagadas e quanto mais ela tateava paredes e quadros , mais alto percebia o tom das vozes em desenfreada discussão. Finalmente chegou à cozinha e, num sopetão, acendeu a luz. Lá nada havia. Sua cabeça estava tomada por interrogações. “De onde vem esse barulho todo, afinal? Quem ou o que gritava tanto?”, perguntava a si mesma. As vozes mantinham a mesma frequencia e ela, corajosa que era, correra até o banheiro a fim de conter a briga que parecia acontecer dentro de sua casa. No entanto, lá nada havia. Sentou ao lado do vaso sanitário e continuou ali por um longo tempo. Ouvia os argumentos de um lado, os rebates do outro. Ora dava razão para uma voz, ora dava razão pra outra. E estava já tão entretida com aquilo tudo que nem percebia que as vozes em desordem e toda aquela algazarra estavam em “acontecência” dentro dela mesma. Era uma casa alta sustentada por galhos de uma frondosa árvore. Era uma menina arguta que já travava em si todas as lutas do mundo.

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*Autoria:  Maíra Viana

*Citação em Aspas: Humberto Gessinger

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.