Somos o que nos propomos a ser…

25 de janeiro de 2012

Para conhecer alguém de verdade, leva-se uma vida inteira. Sempre pensei desta maneira, mas agora sei que ainda assim jamais nos auto-conheceremos ou conheceremos a quem quer que seja. Por isso, me contento com os retalhos. Os retalhos de mim e de toda a humanidade. A alma dividida em partes, como divagava Hermann Hesse. As minhas, as suas,  as nossas. Não sou somente a moça na casa da árvore assim como não és apenas o que vejo.  Somos hermínias, capitus, harry potters e anas delfinas. Somos Macabéa. Somos Luke Skywalker. Somos Ana Karênina. Somos dálias. Somos nuances de nossas próprias sombras. Somos dúvida repentina. Somos trechos de obras consagradas. “Somos o que podemos ser”. Somos frações de uma mesma cidade. Somos o que nos dá coragem. Somos beijo nublado e amarela verdade. Somos desejo virando a esquina. Somos dor e serpentina. Somos o que nos propomos a ser. Sorte nossas almas se encontrarem neste mesmo espaço e tempo. Sorte sermos tantos dentro de nós mesmos. Sorte que leva mais que uma vida para nos auto-conhecermos ou conhecermos a quem quer que seja. Não temos ferramentas intelectuais suficientes para nos entendermos por completo. Somos parte de um todo que jamais vislumbraremos. Somos bichos solitários, lobos que choram enquanto a noite se debruça sobre uma ponte condenada. Somos os botões que acionamos. Somos enquanto acordamos. Somos o que chamamos de sorte. Somos todas as nossas mil almas tracejadas por Hesse e nos tateamos…em partes.


Maíra Viana

Biscatos de Amanhãs

16 de agosto de 2011

meus olhos foliões se abrem. descortinam carnavais no mundo inteiro da solidão do quarto. farejo rastros. farelos de futuro ladeiam-me os passos. uma misteriosa força acena atalhos em trilhas que jamais ousei.  sonhos que estendi num exílio-varal. saltam. vestido que repousa do lado de dentro. rodopia. clarão que rebrilha o destampar dos sentidos. verve. caminho. toda mulher há de caminhar. beiro a chance de. embarco. o mar está pra peixe. pago a conta de luz. em dia, a tempo.  teço outras paredes. traço paralelos de um lugar que se expande. minha caixa. agora eu sei. vida que se amplifica. nós. cômodos que transbordam. teto que se alarga. agora eu sei. e quero. cerimônia sem alarde. umas prateleiras a mais. tintas frutas madrugadas. os sopros de dentro toda manhã. paz que ninguém sabe. prumo. rumo a um viver de doçuras vistoriando biscatos de amanhãs. esgarço as alças dos lábios. eu pra tu. agora eu sei. e espero. é lá que me vejo. contigo palavra-dança. mais um cadinho de tijolo, alguma telha extra e estará pronta a nossa. brindemos. à soma das vontades. tu pra mim. sem demora. pitoresco carnaval. festa nossa de todo dia.


Maíra Viana

Apontamentos

29 de julho de 2011

Eu não vou mais me desculpar. As ruas daqui são difíceis de atravessar e os sinais estão sempre a favor dos carros. Sou apenas mais um corpo à espera rente a faixa de pedestres. Estou escrevendo um livro sobre sustentabilidade. Ando por aí reparando em tudo. Eu fumo. E não vou me desculpar por isso. O vocabulário humano é escasso. Me faltam palavras para nominar algumas coisas. Eu me acinzento junto com a cidade. Respiro quando dá tempo. Fumar não é sustentável. As pessoas falam demais. Eu estou escrevendo um livro sobre empreendedorismo. Em cada esquina, me torno garoa. Não sei se os dicionários são rasos ou se, ultimamente, eu não tenho conseguido definir certas coisas. Estou escrevendo um livro sobre empregabilidade. O corpo humano não é sustentável, mas a minha metrópole é empreendedora. Eu só me alimento de vez em quando. E não vou me desculpar por isso. Não viver me deixa muito cansada. Eu não sou um currículo e não vou mais me apequenar para caber dentro de um uniforme. Eu não nasci de uma fôrma, de um molde. Eu sou uma artista. E não vou me desculpar por isso também. Eu estou escrevendo vários livros. Alguns eu assino, outros não. Mas, tudo bem. A vida não é sustentável e, mesmo assim, está todo mundo andando por aí fazendo suas escolhas. Eu não sei empregar certos verbos. Guardo predicados no fundo falso do meu melhor verso. Eu só quero escrever, mesmo que seja pra ninguém. Quando tudo é urgente, qualquer coisa demora. Me chamam de mar em fúria, me enterneço. O homem ainda não intitulou algumas coisas, mas isso não quer dizer que elas não existam. Sou apenas mais um corpo à espera, suspenso no céu da boca da minha cidade, e me converto em ilha dentro dela. Eu amo São Paulo. E também não vou me desculpar por isso.


Maíra Viana

Uma pá de cao!

24 de abril de 2011

Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O controle remoto da tv já não atende mais ao comando dos dedos cansados. Os pés ja não sentem a terra firme. O estomago chora os sonhos embalados em sacos de lixo. Para cada martelada, um olhar ao chão. Para cada céu, um inferno à altura. E cada espelho relfete o monstro que lhe convém. Cada um com o seu, cada um na sua. Canta a furadeira enquanto falo do que dói em controversa sinfonia. Meus medos me procuram sete vezes ao dia. Quase sempre cedo. Quase sempre tardo. Meu ventre é uma caverna distante cheia de ecos do além. A terra firme já não sente mais os pés cansados. Para cada lágrima, uma pá de cao. Para cada escavação, uma escora no lugar. Tudo isso acontecendo aqui dentro e tanto silêncio lá fora. Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O apresentador entrevista as pessoas em suas festas particulares. Estarão elas em obras também? Como conseguem andar por aí impunemente? Como trocam de vestido enquanto sangram os sete dias da semana? Me divirto em frente à tv. Imagino as pessoas e seus infernos particulares. Cada um no seu, cada um na sua. Quase sempre sede, quase sempre tarde. Para cada um, um monstro. E para cada sonho, um saco de lixo que lhe convém.


Maíra Viana

Todas as partes de mim!

15 de fevereiro de 2011

Tudo em mim que verdadeiramente acontece…acontece dentro do meu estomago! Tem dia que ele inverna, tem que dia que exala suores! Acho que sou a única pessoa que sente as coisas pelo estomago e não pelo coração! Dentro do meu estômago está escondida a minha vergonha em ser quem sou, o meu medo da morte, a minha vaidade de brinquedo, meus sonhos de papelão, o frisson que sinto entre as pernas, o meu desistir diário, as minhas causas perdidas e tudo o que ainda não escrevi! Hoje estou vivendo um dia tumultuado…não lá fora  mas aqui dentro! Não sei o que quero e nem o que me desespera….ou espera! Não estou conseguindo decifrar os suores do meu estomago! Às vezes parece que tudo dói…às vezes parece que tá tudo bem! E, às vezes, só parece…e desaparece! Hoje eu desapareci de mim e estou me procurando por aí! Se alguém, por vias opostas, me alcançar encolhida num canto de bar…me dê noticias de mim…me pegue no colo, me afague e depois me mostre o caminho de volta…de volta à superfície…de volta pra casa…me traga de volta pra dentro de mim…porque eu faço uma falta danada aqui dentro…e eu não sei viver sem todas as partes de mim juntas…mesmo que despedaçadas!

.

Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional

.

Inquietudes!

14 de janeiro de 2011

Você é capaz de guardar um segredo?

Estou falando de algo que é só meu, que ninguém faz idéia, que o mundo desconhece, que eu trago do berço, do antes, do primeiro piscar de olhos. Não é um lugar, nem uma sentença. Também não é uma crença, tampouco uma lenda! Não é com alguém, é comigo. É inato, fortuito, inviolável. Está oculto, encoberto, imperceptível. Não, eu não estou doente…nem louca! O meu segredo é sobre mim. Quantas coisas sobre você só você sabe?

Existe algo em mim que é sem-par, que me torna dessemelhante, que me desarvora. Minha verdade clandestina é o que me faz ser caminhante, que me dá condições para supor os porquês da minha existência, que me propicia frentear a vida. O meu mistério me pertence. E você, tem um mistério que é só seu, que te dá vantagens, que te auxilia?

Se você me der a sua palavra, eu lhe concedo um voto de confiança!

E então, posso lhe contar?

Repare em mim! Ora, vamos, com mais tento, com mais ternura, com mais tato! Está vendo? Experimente de novo! Sem urgência, sem ânsia, sem alvoroço. Para saber de mim, você vai ter que desperdiçar o seu tempo! Você teria disposição suficiente para sair de si e vir até aqui me conhecer com propriedade?

Chegue mais perto, pode se aproximar! Não é fabuloso?

Eu escolhi você, dentre todas as pessoas do mundo, para confidenciar o meu segredo. Esse que é parte de mim, que me deforma e me diferencia: o meu terceiro olho! Esse globo camuflado bem no meio da testa, essa coisa benta e monstruosa, maldita e dadivosa! Um sexto sentido que não se adequa, que não se encaixa.

Estou sempre na divisa entre dois mundos: o visível e o invisível! Meu terceiro olho me permite contato com uma série de coisas que, cientificamente, simplesmente não existem! Então, eu nunca sei onde estou: mais pra lá ou mais pra cá? Talvez por isso eu seja tão inquieta. Andarilha, foragida, mutante.

Eu enxergo a vida em terceira dimensão!

Esse é o meu segredo…que agora é nosso!

E você? Seria capaz de me contar o seu?

.

Maíra Viana

.

Antes de partir…

8 de outubro de 2010

Eu estou no aeroporto. A vida é cheia de altos e baixos, saltos gigantes e quedas estrondosas e no meio de tudo isso sempre tem um aeroporto. A primeira vez que eu andei de avião, eu tinha dez anos. Eu vim para São Paulo sozinha, com um cracházinho de “menor de idade” no pescoço e somente uma aeromoça me cuidando. Eu já era a menina do sapato caramelo e não sabia. A menina que caminha sozinha. Dez anos, velho! Puta que pariu, com dez anos eu já era EU. Hoje é um dos dias mais felizes da vida do Fernando. E ele disse que gostaria de ter por perto as pessoas que ele mais ama. Tanta gente massa com quem ele poderia partilhar tudo isso e somente a minha ida ele providenciou. Eu devo mesmo ser importante. Embora eu duvide disso o tempo todo. A menina do sapato caramelo também duvida dela mesma o tempo inteiro. Mas mesmo assim ela caminha. E eu embarco em aviões e sigo em frente. Eu me recuso a andar pra trás. Eu tenho pressa de chegar. O Fernando também tem pressa… de viver as coisas! Ele é muito ansioso. Eu também sou. Ele é o menino do violão e eu sou a menina das palavras. Somos realidade e ficção, tudo ao mesmo tempo. E duvidamos de nós o tempo todo…mas, nos intervalos, nós acreditamos! As vezes, eu acho que alguém nos assiste a todo instante. Quando eu era pequena, se alguém me dissesse que eu ia andar tanto de avião, eu acho que eu não ia acreditar. O avião vai mais rápido. E eu tenho pressa. Porque desconheço o raciocínio do tempo. Eu sou muito ansiosa. O Fernando também é. A gente tem uma pressa que não se define. Mas quando a gente senta pra fazer música, o tempo pára. Faz tempo que a gente não senta pra fazer música, faz tempo que o tempo não pára. Eu gosto de acentuar os “páras” quando significam verbos mas parece que com a reforma ortográfica ficou demodê! É assim que se acentua? Eu gosto de chegar cedo no aeroporto, horas antes. Tenho prazer em ficar escrevendo aqui. É um lugar que me inspira. O Fernando não. Ele só chega atrasado. Ele tem a capacidade de perder os vôos. Eu acho que ele dorme demais. Quem dorme muito, é mais feliz. Eu sou menos. Os relógios olham pra mim sempre furiosos. Ele não. O H.G fala que todo mundo é moderno como um relógio antigo. Não sei. O H.G fala demais, nem tudo o que ele diz se escreve….mas se canta. O H.G deve ser ansioso. Assim como eu sou. Ou como o Fernando é. Quando eu tinha dez anos e andei de avião pela primeira vez , eu já ouvia o H.G. Foi ele quem me fez ler Albert Camus. Caramba, o H.G está velho! Caralho, eu também estou! O Fernando também, mas ele nem aparenta. Deve ser por causa da luz. Tem gente que tem uma luz, tem gente que não. O H.G oscila luminosidade e breu. Eu também. O Fernando não. Eu to indo pro Rio de Janeiro já, já! O Fernando disse que me ama e que me quer por perto num dos dias mais felizes da vida dele. O H.G não me ama. Ele nem sabe que eu existo. Mas eu gosto quando ele canta. Mesmo assim, ele nem sabe o meu nome. Eita, já chamaram o número do meu vôo no auto-falante! O Fernando diz que me ama toda hora. O que ele não sabe é que eu o amaria mesmo que ele não soubesse o meu nome. O que ele não sabe é que a maior parte dos aviões nos quais eu embarco é para estar ao lado dele. Ainda bem que ele sabe que eu existo e que me chama pelo meu nome. Ainda bem que os aviões existem e que com dez anos eu já buscava São Paulo no meu caminho. Eu gosto quando o Fernando canta. Eu gosto quando o tempo pára pra gente fazer música. E adoro os meus sapatos caramelos. A internet do aeroporto é muito cara! Os caras exploram mesmo! E já chamaram o meu vôo. Lá vou eu, menina das palavras, sempre indo de encontro ao que virá. Antes de partir, eu tinha que escrever tudo isso. Não escrever me deixa muito cansada. Com dez anos de idade, eu já sabia o que eu queria e eu já era eu. Só não tinha o Fernando ainda, mas agora tem. Boa viagem!

.

Maíra Viana

.

Curvas Fechadas

9 de setembro de 2010

Sabe aqueles dias em que você acorda e sua cabeça fica enumerando, sem parar, todas as possibilidades de como vai ser a sua morte? Não, acho que você não faz idéia. Pessoas normais não devem passar por esse tipo de dia, mas enfim, sei lá porque….eu passo. Então, aconteceu segunda-feira passada, véspera de feriado, cidade quase parada…e o meu coração querendo seguir a mesma freqüência. Num de meus devaneios, eu partia dessa para uma outra (se é que existe uma outra – ainda não assisti “nosso lar”, preciso urgentemente) sentindo uma pressão imensa no peito até enfartar. Mas, calma, não para de ler agora achando que esse texto vai se encaminhar pro estilo fúnebre porque, na minha vida, pra minha sorte, as histórias sempre fazem curvas fechadas no sentido oposto ao que pareço estar indo. Então, fica aí e lê até o final. Luz, câmera, ação: ao cair da noite, um choro compulsivo se abateu sobre mim. Eu me via caindo de prédios, enroscando o pescoço em cordas penduradas sei lá onde, entrando no elevador e desabando junto com ele, sendo atravessada por carros na rua e, por fim, levando uma bala na cara bem no meio de um assalto.  Existe um desespero escondido no apartamento de cada pessoa que mora sozinha. De vez em quando, ele salta no meio da sala e pronto: não há quem o varra de novo pra debaixo do tapete. Assim sendo, optei por sair de casa e fui bater à porta de um certo amigo músico (que muitos por aqui já conhecem). Achei que seria salva, fui lá buscando isso, mas qual não foi minha surpresa ao perceber que o coitado se encontrava em estado pior que o meu: a dor dele era física. Enquanto eu tentava chorar em seu ombro, ele me interrompia, corria pro banheiro, vomitava a pizza da semana passada revolta em seu estomago e voltava para, em vão, tentar me consolar. Ficamos por mais de duas horas sentados por ali: eu enumerando todas as cento e vinte e uma vezes em que morri, de maneiras diferentes, só naquele dia….enquanto ele me ouvia atentamente, pedindo, aqui e ali, dois segundos para correr pro banheiro e botar todas as coisas fermentadas, em seu interior, pra fora. Na verdade, eu acho que ele estava me fazendo um favor, vomitando por mim e por ele, todas as coisas que não queremos mais hospedar dentro de nós, nem guardar embaixo do tapete de nossos apartamentos. Por fim, lá pelas quatro da manhã, não tive outro jeito a não ser deixar essa coisa boba de morte de lado e tomar uma atitude sã: levei-o para o hospital. Ficamos por lá cerca de duas horas e enquanto eu cuidava dele, eu percebia que sua maneira de me salvar era me deixar salvá-lo. As coisas começaram a fazer um sentido tremendo e, desde então, eu passei a enumerar todas as possibilidades de vida que eu ainda tinha pela frente.  E entendi, pelo menos momentaneamente, que para além das curvas fechadas, há todo um horizonte se sugerindo adiante.

.

Maíra Viana

.

E Deus disse: “Corta!”

23 de agosto de 2010

Tem esse telefonema que eu preciso dar e não consigo. Talvez porque eu ache que ainda não ensaiei o bastante, talvez porque ultimamente eu não tenha exercitado muito o uso da minha própria voz. Faz uma semana que eu não saio de casa e tem essas compras de supermercado que eu preciso fazer e não consigo. Dia desses, eu me vi no meio de um assalto num banco não muito longe daqui. O bandido se aproximou e colocou o cano da arma dentro do meu ouvido. Eu fechei os olhos e fiquei implorando a ele: “me dá uma chance, me dá uma chance”. Repetia sem parar essa mesma sentença enquanto, dentro da minha cabeça, meus miolos já se sentiam implodidos melecando todo o chão. No fundo, no fundo, eu não estava pedindo uma chance ao bandido, mas sim a Deus. Eu queria sobreviver a tudo aquilo para, dali pra frente, aproveitar melhor a minha vida, os meus dias. Eu estava pedindo a Deus para viver um pouco mais. O problema é que eu sabia que ele simplesmente não existia e por isso jamais teria como me conceder essa dádiva: o prolongamento do tempo da existência. E eu continuava ali, naquela cena pausada, sentindo o roçar da arma percorrendo meu rosto até que não senti mais nada. Quando tomei coragem e abri os olhos, eu estava no meu quarto. Nada daquilo parecia ter acontecido de fato. Ou talvez tivesse sido tudo real até a parte em que Deus resolveu me ouvir e disse: “corta”!  Ele, todo poderoso, com seu controle remoto em mãos, rebobinou a fita da minha vida e decidiu atender meu pedido. A tal da chance me fora dada. Ele deve ter clicado em algum botão do tipo “transformar realidade em pesadelo”. Eu sou mesmo uma atéia de merda! Falo com Deus toda hora e digo pra todo mundo que ele não existe. Depois fico achando que ele tem um controle remoto universal que altera o destino da vida da gente. Chega! Estou cansada de divagar e já não tem nada pra comer aqui nessa casa. Eu vou tomar um banho, fumar um cigarro e botar a cara na rua. São apenas duas quadras até o supermercado. Com o mp3 player no ouvido, a chance de alguém falar comigo é mínima.  Se eu voltar viva, com as sacolas na mão, posso reabastecer a geladeira de silêncios por mais uma semana. E, só me restará uma coisa a fazer: a porra do telefonema que eu preciso dar. Discar o número é fácil, dizer alô também…o problema todo é articular as palavras em frases que façam qualquer sentido para quem está do outro lado da linha.

.

Maíra Viana

.

Miolo Mole!

23 de junho de 2010

Eu devo ter o miolo mole. Não é possível! Fico reparando nos humanos, daqui do alto da minha janela: correndo atrás do próprio rabo, latindo sem saber pra quem, nascendo e morrendo em discursos que não vão além de cento e quarenta caracteres. Freqüentemente acho que ‘saquei o lance’ até que tudo se vai…por água palafita abaixo ou fogo morro adentro, a depender da região do país em que se está. Definitivamente, não sou capaz de processar o funcionamento das pessoas. O técnico da seleção esculhamba com a imprensa brasileira em rede internacional, os jornalistas revidam. Debate-se o secular privilégio da emissora NX Zero em detrimento das outras mídias e crucifica-se o porta-voz do discurso oficial. O povo brasileiro quer calar a boca de…não se sabe quem! Não seria muito mais fácil apertar o “off” do controle remoto? Ou, quem sabe, sacudir o objeto dentro do aquário, da pia, da máquina de lavar da vovozinha? Mas aí complica, né? O que vão digitar nos tais 140 caracteres sem a TV ligada soprando aos ouvidos a cola da prova? O ranking virtual de tópicos mais falados no país vai agonizar “cri-cri-cris” em máxima potência torturando os ouvidos mais que o “fóoom-fóoom” das famigeradas vuvuzelas. Entre dunguianos, lulistas, máfias douradas, twiteiros e serristas só há uma coisa em comum: todos são “queridos telespectadores”. Uma vez me falaram que a internet ia acabar com a televisão e, no entanto, o que vejo, por entre os arbustos, é o cyber espaço se dobrando a ela: soberana telinha. Eu juro que tento entender o comportamento humano, mas não consigo. E devo mesmo ter o tal do miolo…mole.

.

Maíra Viana

.