O Homem do Gás

Acordo em carne viva. O amor disse que viria e não chegou. Espero em frente ao portão. Esperança dá um tapinha nas costas, senta ao lado, faz que vai puxar um assunto, desiste. Muda, vê que eu nâo tô pra papo, silencia. Lá dentro, carne de segunda, respira sob o vinagre balsâmico em cima do balcão da cozinha. Alcatra. A carne sangra, sempre há a carne. Hoje vem o homem do gás. Prometeu. Esperança diz que dessa vez teremos visita. Sem gás, não há carne balsâmica no forno. Sem gás, morre a sombria ligeireza da gente. Fenece o combustível da vontade. Sento no batente, joelhinhos dobrados, mãos entre as pernas, rezo. O homem do gás deve cruzar a esquina a qualquer instante. Seu par de olhos verá o portão, a Esperança boba e eu, todos á sua espera. Em cima da mesa, a carne do dia, ainda crua. Fogão ansioso, abanando o rabinho, doido para assar qualquer coisa, querendo muito respingos balsâmicos por entre as bocas. Bocas, estas sussurram: chamaaaa!!! Ouço a súplica vindo de dentro da casa. Penso: E essa porra desse homem que não cruza logo essa droga de esquina trazendo nossa solução a gás?