Assombrações da Mulher de 30!

Tenho pensado muito (e quando é que não?) num futuro próximo: a minha velhice. A minha velhice e a de todos nós. Fantasmas de senhorinhas me rondam e me impulsionam a correr para o lado oposto. Dia desses me acompanhava uma velhinha simpática, porém, triste. Seu rosto era o meu. Me levou para conhecer sua casa (minha?): um kitnet vazio e mofado, longínquo, lá pras bandas do Vale das Etiquetas Encardidas. O apartamento mais parecia um museu cheio de objetos de marcas de grife que outrora tiveram valor e que agora, nesse outro tempo (estamos aqui num futuro!?) não valem mais nada. A pobre velhinha mostrou-me seus boletos de aluguéis atrasados e, entre chorumelas, me fez passar a vista na carta de ação de despejos colada em seu “mural de recados”. Foi o suficiente. Desde então, lembro da fantasminha idosa e cuido com mais afinco das minhas finanças, de uma reserva estratégica que nunca fiz, do plano de aposentadoria com o qual jamais havia me preocupado, etc,etc. Esta semana, quem me assombra é o fantasma da velhinha baranga. Esta tem uns oitenta e cinco quilos, anda com a coluna envergada, olhos cabisbaixos, sofre de artrose, osteoporose e varizes múltiplas nas pernas. A senhorinha fantasma (que está mais para a “Bruxa do 71”) se parecia tanto comigo que achei que estava me olhando no espelho (só que trinta anos depois!). Corri em direção à rua e, na primeira placa onde estava escrito “Academia”, adentrei e me matriculei. Agora, só como rúcula e macarrão “O Casarão” sem glúten! “Assombrações da Mulher de 30” – diagnosticou minha terapeuta. Engraçado, às vezes, a gente paga para ouvir o que já sabemos. Sei não, mas acho que no próximo mês virá uma outra fantasminha camarada me fazer terrorismo futurístico. Estou falando da Velha dos Gatos: aquela personagem do conto popular que, mergulhada em sua solidão, dividia as espinhas das latas de sardinha com uma série de felinos pretos. Não tinha sequer um “parzinho” para compartilhar o balde de pipocas diante da TV. Não sei como escapar desse destino trágico, porém, já se vão trinta e cinco anos de um solipsismo convicto e entediado. Numa das versões da história da Velha dos Gatos, dizem que em sua lápide estava escrito: “Hoje, morre um mundo!”. Gosto disso! Mas não muda nada. Nada muda nada! É, a vida é um sonho breve! Envelhecer é contabilizar a quantidade de comprimidos que vão entrando no seu dia a dia com o passar do tempo. E, de repente, numa noite, ao apagar com dificuldade as luzes do quarto, percebemos que deixamos de ser assombrados para então, finamente, nos tornarmos assombrações da jovem vida de outrem.


Maíra Viana