A Brevidade Cento-e-Quarenta-Caracteriana!

Ando lendo muito. Cada vez se torna mais complexo usar o tom coloquial. Sonho em versos, em rimas, em estruturas narrativas. Anoto recados telefônicos em linhas de subjetividade que confundem as pessoas e me é doloroso evitar tal delito. Minha faxineira se queixa dos post-its que deixo pregados na porta da geladeira. Fica difícil cuidar da casa de acordo com o que rabisco. É, os livros estão a me fazer mal! Estão me consumindo e pareço agora uma grande enciclopédia ambulante a falar como se as pessoas estivessem  me lendo mas elas estão apenas me ouvindo e esperam que eu seja breve. Apenas os cães nos parques tem tempo e paciência para ouvir qualquer som que eu possa emitir de dentro de mim. A cidade não me observa, apenas me permite caminhar por suas calçadas. Alamedas tão anônimas quanto eu e esse meu estranho linguajar que parece arrancado das páginas de um Faulkner sobre o qual venho me debruçando. Então, sem consolação, eu sento nos bancos do Trianon. Arvores sombrias se curvam bisbilhotando meus sussurros. Eu farfalho o idioma das folhas secas e, minutos depois, me encontro latindo num papo pra lá de shakespeariano com os vira-latas do parque, pois eles sim têm tempo pra mim e parecem entender minha prolixidade, pois respostam em sonoros uivos que amansam a angustia da brevidade cento-e-quarenta-caracteriana que a sociedade me exige.


Maíra Viana