E Deus disse: “Corta!”

Tem esse telefonema que eu preciso dar e não consigo. Talvez porque eu ache que ainda não ensaiei o bastante, talvez porque ultimamente eu não tenha exercitado muito o uso da minha própria voz. Faz uma semana que eu não saio de casa e tem essas compras de supermercado que eu preciso fazer e não consigo. Dia desses, eu me vi no meio de um assalto num banco não muito longe daqui. O bandido se aproximou e colocou o cano da arma dentro do meu ouvido. Eu fechei os olhos e fiquei implorando a ele: “me dá uma chance, me dá uma chance”. Repetia sem parar essa mesma sentença enquanto, dentro da minha cabeça, meus miolos já se sentiam implodidos melecando todo o chão. No fundo, no fundo, eu não estava pedindo uma chance ao bandido, mas sim a Deus. Eu queria sobreviver a tudo aquilo para, dali pra frente, aproveitar melhor a minha vida, os meus dias. Eu estava pedindo a Deus para viver um pouco mais. O problema é que eu sabia que ele simplesmente não existia e por isso jamais teria como me conceder essa dádiva: o prolongamento do tempo da existência. E eu continuava ali, naquela cena pausada, sentindo o roçar da arma percorrendo meu rosto até que não senti mais nada. Quando tomei coragem e abri os olhos, eu estava no meu quarto. Nada daquilo parecia ter acontecido de fato. Ou talvez tivesse sido tudo real até a parte em que Deus resolveu me ouvir e disse: “corta”!  Ele, todo poderoso, com seu controle remoto em mãos, rebobinou a fita da minha vida e decidiu atender meu pedido. A tal da chance me fora dada. Ele deve ter clicado em algum botão do tipo “transformar realidade em pesadelo”. Eu sou mesmo uma atéia de merda! Falo com Deus toda hora e digo pra todo mundo que ele não existe. Depois fico achando que ele tem um controle remoto universal que altera o destino da vida da gente. Chega! Estou cansada de divagar e já não tem nada pra comer aqui nessa casa. Eu vou tomar um banho, fumar um cigarro e botar a cara na rua. São apenas duas quadras até o supermercado. Com o mp3 player no ouvido, a chance de alguém falar comigo é mínima.  Se eu voltar viva, com as sacolas na mão, posso reabastecer a geladeira de silêncios por mais uma semana. E, só me restará uma coisa a fazer: a porra do telefonema que eu preciso dar. Discar o número é fácil, dizer alô também…o problema todo é articular as palavras em frases que façam qualquer sentido para quem está do outro lado da linha.

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Maíra Viana

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