Somos o que nos propomos a ser…

Para conhecer alguém de verdade, leva-se uma vida inteira. Sempre pensei desta maneira, mas agora sei que ainda assim jamais nos auto-conheceremos ou conheceremos a quem quer que seja. Por isso, me contento com os retalhos. Os retalhos de mim e de toda a humanidade. A alma dividida em partes, como divagava Hermann Hesse. As minhas, as suas,  as nossas. Não sou somente a moça na casa da árvore assim como não és apenas o que vejo.  Somos hermínias, capitus, harry potters e anas delfinas. Somos Macabéa. Somos Luke Skywalker. Somos Ana Karênina. Somos dálias. Somos nuances de nossas próprias sombras. Somos dúvida repentina. Somos trechos de obras consagradas. “Somos o que podemos ser”. Somos frações de uma mesma cidade. Somos o que nos dá coragem. Somos beijo nublado e amarela verdade. Somos desejo virando a esquina. Somos dor e serpentina. Somos o que nos propomos a ser. Sorte nossas almas se encontrarem neste mesmo espaço e tempo. Sorte sermos tantos dentro de nós mesmos. Sorte que leva mais que uma vida para nos auto-conhecermos ou conhecermos a quem quer que seja. Não temos ferramentas intelectuais suficientes para nos entendermos por completo. Somos parte de um todo que jamais vislumbraremos. Somos bichos solitários, lobos que choram enquanto a noite se debruça sobre uma ponte condenada. Somos os botões que acionamos. Somos enquanto acordamos. Somos o que chamamos de sorte. Somos todas as nossas mil almas tracejadas por Hesse e nos tateamos…em partes.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional

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