Permaneço de pé aqui dentro. Caminho pela casa como um bicho estranho acuado entre quatro paredes de uma prisão que eu mesma criei. E dói muito não ser orgulho para ninguém , dói muito chegar à velhice sem ter a lembrança de um dia ter sido jovem, dói olhar os amigos bem-sucedidos, dói não ler os jornais todos os dias, dói não ser boa em nada, dói viver à sombra de um talento fingido, dói ser a farsa do dia-a-dia, dói ser quem sou, dói ver os livros nunca dantes folheados na estante da sala, dói a sensação de praticamente não existir, de estar morta em vida, de apenas vegetar num corpo alheio aos desejos que finjo sentir. A máscara pesa no rosto, o espelho reflete a feiúra óbvia e o relógio planta cabelos brancos num retrato fiel da minha paisagem. É penoso saber que não posso confiar em nada que vá além de mim mesma, é penoso saber que só posso acreditar no que posso tocar e que, talvez, até isso não seja real. O mundo que agora dorme lá fora pode ser apenas uma armadilha, uma realidade paralela ou o sonho de alguém em Marte. É penoso e dói ser quem sou, me perguntar o que me pergunto, chegar às conclusões que chego. E é por isso que, enquanto dorme o mundo lá fora, eu permaneço de pé aqui dentro.
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Maíra Viana
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
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