Vento Vilão!

O vento de fora agora cismou de soprar aqui dentro. Revira as coisas atrás da estante. Escancara portas e janelas. E me empurra. Pra fora. Pra longe daqui, pra perto daí. Seguro firme. Cravo as unhas nas árvores mais frondosas. Sangro até fincar. Lá fora não é ambiente pra mim. Mas ele insiste, o brincalhão. Sopra como se me fizesse um favor. Entorna canções, lembranças e lugares de ontem. Cacarecos que ensaio me desfazer faz tempo. E nunca me desfaço. Nunca me satisfaço. E disfarço…enquanto o vento me empurra pra fora do mundo ou sei lá pra onde. Nada fica firme por muito tempo. Finco até sangrar. Ficar é uma escolha que eu fiz faz tempo. Nada mais me cabe a não ser a minha casa. Casinha. Pequena. Caixinha em que me encolho. Me encaixo. Me recolho e me acho. Não entendo esse sopro todo, essa ventania que me invade. O grande amor ja passou por aqui, já parou, já ficou…e já foi. Não segurei firme, nem finquei unhas, apenas sangrei. E deixei ir. O vento levou sei lá pra onde. O que mais quer levar embora de mim agora, seu vento vilão? Pra quê tanto bagunçar? Deixe o silêncio e a paz em cima da mesa. E as coisas atrás da estante, se quiser, pode levar. Só me deixe a sós comigo, por mais algum tempo. Afinal, ainda me resto. Perto daqui e bem longe daí. E quando cismar de soprar aqui dentro de novo, pense duas vezes. E vá soprar em outro terreiro, faz favor.

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Maíra Viana

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.

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