Sombra em Excelência!

“…Parecia que era minha aquela solidão…”


Chegava em casa e dava de cara com a solidão. Esparramada no sofá, impondo-lhe canais de tv, ocupando os espaços da sala, incomodando o quanto podia. Aquele convívio estava ficando impossível. Alguém ia ter que sair. A casa já era muito pequena. Era muita audácia tomar para si a cozinha, o quarto e o banheiro. Bagunceira, barulhenta, folgada era a solidão. E comilona também. Tomava os iogurtes todos de uma vez. Mal-educada ainda arrotava. A solidão era mais que uma hóspede, era sua sombra em excelência. Do alto da jaboticabeira vivia a escritora, a questionar lá com seus botões, que diabo de escolha havia feito. Bastava pensar em sair de casa, pronto, tudo nela se derramava em motivos para não fazê-lo. Não ia ao teatro porque o dia se fazia quente, não visitava parentes para não lhes dar trabalho, não frequentava festas ja que, claro, não saberia o que vestir. Seu pensamento nem atravessava as portas que dão pra rua, que dirá seus pés. Resignada, tentava apenas se acomodar no pouco espaço que ainda lhe restava. Sua solidão era a pior colega de quarto que já tivera.

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*Autoria:  Maíra Viana

*Citação em Aspas:  Humberto Gessinger

*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.