9 de março de 2010
“…Be my friend…
…And breathe me…”
Onde estão as minhas pessoas agora? Eu tento falar mas ninguém parece me ouvir. Eu estou invisível? Ou as minhas pessoas simplesmente nunca têm tempo? Ou não se interessam? O que nos seduz e o que nos repele? O que nos faz párar no tempo? O que nos faz perder o fôlego? O que nos torna o que somos? O que faz com que algumas pessoas sejam nossas e todo o resto do mundo não? Eu observo as minhas pessoas. Estão sempre tão ocupadas com seus cigarros e seus relógios de pulso! Coçam a cabeça, murmuram qualquer coisa e desligam o telefone porque os créditos estão acabando. Elas são monossilábicas, as minhas pessoas. São confusas, comediantes, imprecisas. Elas vão e vem, sem qualquer aviso prévio. São falhas, ausentes e misteriosas! Durante a semana, pode esquecer! Elas estão sempre correndo pra lá e pra cá, como se o mundo fosse acabar amanhã. Esquecem de si e de mim. E, poxa, às vezes a gente só precisa dizer “alô” ou dividir uma garrafa de cerveja com alguém num boteco de calçada cheio de baratas pelo chão. A vida se resume ao que você consegue viver depois do expediente. Antes disso: esquece! Me esquece! Eu não existo! Que dirá as minhas pessoas! Então está tudo certo, a gente se encontra numa outra vida…onde o dia comece depois das 18 horas. Aos sábados, eu penso que tudo pode mudar mas aí as minhas pessoas preferem se trancar em locais fechados, esfumaçados…onde luzes estroboscópicas piscam na sua cara e milhares de decibéis fazem cócegas violentas nos seus ouvidos! Então, eu continuo falando mas…quem se importa? Os terremotos estão sacudindo o planeta mas…quem os ouve? O mundo faz tanto barulho que já nem nos escutamos mais! Por falta de tempo, de vontade, de capacidade! Mas, quer saber? As minhas pessoas são legais! Se parecem comigo! São a minha gente. E eu não abro mão delas…mesmo quando são falhas, ausentes e misteriosas! Eu só queria que elas lembrassem que, para além da vida comum, existem sons invisíveis que nos chamam, que nos tele-transportam, que nos colocam numa mesma linha magnética…que vulgarmente chamamos de afinidade. Falo de uma mesma freqüência afetiva que faz com que a gente se perceba, se pertença, se adote…que nos selam uns nos outros…mesmo que distantes…independente de que horas são e de onde estamos agora!
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Breatthe Me – Sia
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional
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Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 39
21 de janeiro de 2010
“…and learn our souls are all
we own before we turn to stone…”
Para conhecer alguém de verdade, leva-se uma vida inteira. Sempre pensei desta maneira, mas agora sei que ainda assim jamais nos auto-conheceremos ou conheceremos a quem quer que seja. Por isso, me contento com os retalhos. Os retalhos de mim e de toda a humanidade. A alma dividida em partes, como divagava Hermann Hesse. As minhas, as suas, as nossas. Não sou somente a moça na casa da árvore assim como não és apenas o que vejo. Somos hermínias, capitus, harry potters e anas delfinas. Somos Macabéa. Somos Luke Skywalker. Somos Ana Karênina. Somos dálias. Somos nuances de nossas próprias sombras. Somos dúvida repentina. Somos trechos de obras consagradas. “Somos o que podemos ser”. Somos frações de uma mesma cidade. Somos o que nos dá coragem. Somos beijo nublado e amarela verdade. Somos desejo virando a esquina. Somos dor e serpentina. Somos o que nos propomos a ser. Sorte nossas almas se encontrarem neste mesmo espaço e tempo. Sorte sermos tantos dentro de nós mesmos. Sorte que leva mais que uma vida para nos auto-conhecermos ou conhecermos a quem quer que seja. Não temos ferramentas intelectuais suficientes para nos entendermos por completo. Somos parte de um todo que jamais vislumbraremos. Somos bichos solitários, lobos que choram enquanto a noite se debruça sobre uma ponte condenada. Somos os botões que acionamos. Somos enquanto acordamos. Somos o que chamamos de sorte. Somos todas as nossas mil almas tracejadas por Hesse e nos tateamos…em partes.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Turn Stone – Ingrid Michaelson
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 26
15 de janeiro de 2010
“…Will all your thoughts fly to me…
….Will all your love bring me home….”
Tudo em mim que verdadeiramente acontece…acontece dentro do meu estomago! Tem dia que ele inverna, tem que dia que exala suores! Acho que sou a única pessoa que sente as coisas pelo estomago e não pelo coração! Dentro do meu estômago está escondida a minha vergonha em ser quem sou, o meu medo da morte, a minha vaidade de brinquedo, meus sonhos de papelão, o frisson que sinto entre as pernas, o meu desistir diário, as minhas causas perdidas e tudo o que ainda não escrevi! Hoje estou vivendo um dia tumultuado…não lá fora mas aqui dentro! Não sei o que quero e nem o que me desespera….ou espera! Não estou conseguindo decifrar os suores do meu estomago! Às vezes parece que tudo dói…às vezes parece que tá tudo bem! E, às vezes, só parece…e desaparece! Hoje eu desapareci de mim e estou me procurando por aí! Se alguém, por vias opostas, me alcançar encolhida num canto de bar…me dê noticias de mim…me pegue no colo, me afague e depois me mostre o caminho de volta…de volta à superfície…de volta pra casa…me traga de volta pra dentro de mim…porque eu faço uma falta danada aqui dentro…e eu não sei viver sem todas as partes de mim juntas…mesmo que despedaçadas!
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Keane – Fly To Me
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 20
4 de outubro de 2009
“…Abre a janela agora, deixa que o sol te veja,
é só lembrar que o amor é tão maior…”
Viver à sombra de uma frondosa arvore foi a maneira que encontrei de me manter à salvo da luz do dia. Minha casa é minha zona de conforto, é o lugar onde posso ser quem sou e brincar de ser quem não sou, de vez em quando, sorrindo pro espelho. E ninguém precisa saber o que faço quando estou apenas comigo, quando danço de calcinha pelo corredor ou quando deito com o rosto colado no chão do banheiro. Escolhi viver à sombra por não poder prever o que a minha própria luz poderia atrair para mim. A gente vai envelhecendo junto com os galhos das árvores que nos sustentam e ficamos cada vez mais sós. Temos medo de estender a mão, de levantar, de seguir em frente. E só nos resta viver à sombra dos nossos sonhos, de nossos mundos imaginários, de nossas zonas de conforto. E acordamos, todos os dias, entediados com a perspectiva de mais vinte e quatro horas previsíveis cheias de contas a pagar, horários a cumprir e faixas de pedestre para atravessar. E andamos pelas ruas, acompanhados de nossas próprias sombras, sem sequer olhar pros lados, como robôs de algum filme futurista e não ousamos sair do script que nós mesmos escolhemos encenar. Porém, tudo o que desejamos é que alguém, em algum momento, esbarre em nós, derrube as certezas que carregamos e nos ajude a recolher o que ficou caído no chão. Sonhamos que alguém, algum dia, irá realmente reparar em quem somos para além de nossas zonas de conforto, que unicamente se importará conosco, por saber que para além das sombras que exibimos, existem as luzes que insistimos em esconder.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Marcelo Camelo
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 17
24 de setembro de 2009
“…Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é….”
Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O controle remoto da tv já não atende mais ao comando dos dedos cansados. Os pés ja não sentem a terra firme. O estomago chora os sonhos embalados em sacos de lixo. Para cada martelada, um olhar ao chão. Para cada céu, um inferno à altura. E cada espelho relfete o monstro que lhe convém. Cada um com o seu, cada um na sua. Canta a furadeira enquanto falo do que dói em controversa sinfonia. Meus medos me procuram sete vezes ao dia. Quase sempre cedo. Quase sempre tardo. Meu ventre é uma caverna distante cheia de ecos do além. A terra firme já não sente mais os pés cansados. Para cada lágrima, uma pá de cao. Para cada escavação, uma escora no lugar. Tudo isso acontecendo aqui dentro e tanto silêncio lá fora. Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O apresentador entrevista as pessoas em suas festas particulares. Estarão elas em obras também? Como conseguem andar por aí impunemente? Como trocam de vestido enquanto sangram os sete dias da semana? Me divirto em frente à tv. Imagino as pessoas e seus infernos particulares. Cada um no seu, cada um na sua. Quase sempre sede, quase sempre tarde. Para cada um, um monstro. E para cada sonho, um saco de lixo que lhe convém.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Caetano Veloso
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 14
10 de setembro de 2009
“…E no final, assim calado, eu sei que vou
ser coroado rei de mim….”
Permaneço de pé aqui dentro. Caminho pela casa como um bicho estranho acuado entre quatro paredes de uma prisão que eu mesma criei. E dói muito não ser orgulho para ninguém , dói muito chegar à velhice sem ter a lembrança de um dia ter sido jovem, dói olhar os amigos bem-sucedidos, dói não ler os jornais todos os dias, dói não ser boa em nada, dói viver à sombra de um talento fingido, dói ser a farsa do dia-a-dia, dói ser quem sou, dói ver os livros nunca dantes folheados na estante da sala, dói a sensação de praticamente não existir, de estar morta em vida, de apenas vegetar num corpo alheio aos desejos que finjo sentir. A máscara pesa no rosto, o espelho reflete a feiúra óbvia e o relógio planta cabelos brancos num retrato fiel da minha paisagem. É penoso saber que não posso confiar em nada que vá além de mim mesma, é penoso saber que só posso acreditar no que posso tocar e que, talvez, até isso não seja real. O mundo que agora dorme lá fora pode ser apenas uma armadilha, uma realidade paralela ou o sonho de alguém em Marte. É penoso e dói ser quem sou, me perguntar o que me pergunto, chegar às conclusões que chego. E é por isso que, enquanto dorme o mundo lá fora, eu permaneço de pé aqui dentro.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Marcelo Camelo
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 14
23 de agosto de 2009
“…O vento vai dizer, lento, o que virá…”
O vento de fora agora cismou de soprar aqui dentro. Revira as coisas atrás da estante. Escancara portas e janelas. E me empurra. Pra fora. Pra longe daqui, pra perto daí. Seguro firme. Cravo as unhas nas árvores mais frondosas. Sangro até fincar. Lá fora não é ambiente pra mim. Mas ele insiste, o brincalhão. Sopra como se me fizesse um favor. Entorna canções, lembranças e lugares de ontem. Cacarecos que ensaio me desfazer faz tempo. E nunca me desfaço. Nunca me satisfaço. E disfarço…enquanto o vento me empurra pra fora do mundo ou sei lá pra onde. Nada fica firme por muito tempo. Finco até sangrar. Ficar é uma escolha que eu fiz faz tempo. Nada mais me cabe a não ser a minha casa. Casinha. Pequena. Caixinha em que me encolho. Me encaixo. Me recolho e me acho. Não entendo esse sopro todo, essa ventania que me invade. O grande amor ja passou por aqui, já parou, já ficou…e já foi. Não segurei firme, nem finquei unhas, apenas sangrei. E deixei ir. O vento levou sei lá pra onde. O que mais quer levar embora de mim agora, seu vento vilão? Pra quê tanto bagunçar? Deixe o silêncio e a paz em cima da mesa. E as coisas atrás da estante, se quiser, pode levar. Só me deixe a sós comigo, por mais algum tempo. Afinal, ainda me resto. Perto daqui e bem longe daí. E quando cismar de soprar aqui dentro de novo, pense duas vezes. E vá soprar em outro terreiro, faz favor.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Marcelo Camelo
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 11
8 de agosto de 2009
“…Eu insisto em cantar diferente do que ouvi…”
O vento me empurra pra fora do mundo com tanta força que chega a bater as janelas de casa. Mas pareço ficar. Mesmo sabendo que minha existência não fará a menor diferença. À tudo respondo que tanto faz. Escolhas são nocivas. Escolhas sempre chegam acompanhadas de expectativas. E para cada expectativa, uma decepção à altura. As pessoas criam seus infernos particulares à medida dos anos. Alimentam seus bichos interiores, preenchem seus sacos de lixo…até não poder mais. E depois não conseguem se achar em seus próprios espelhos. Parecem figuras alteradas por uma lente de aumento, distorcidas na forma e na cor. Amanhecem transmutadas em monstros de quatro olhos. E não sabem porquê. Nem querem saber. Estão sempre atrasadas. Correndo de lá pra cá. O relógio lhes mantém ocupadas grande parte do dia. A pressa é uma engenhosa invenção da humanidade. As pessoas contam as horas para se distrair do que lhes é irremediável. E me pergunto com freqüência: a quem interessa? a quem o que eu penso interessa? a quem a minha vida interessa? À tudo respondo que tanto faz. Me nego a fazer mais escolhas. Eu sempre erro. E não sei porquê. Nem quero saber. A pressa me acompanha grande parte do dia, o problema é que, à noite, ela adormece e eu não. O vento me empurra pra fora do mundo com tanta força que chega a bater as janelas de casa. Mas, ainda assim, teimo em ficar.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Oswaldo Montenegro
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 10
23 de julho de 2009
“…Não procure outras pessoas no espelho…”
Todo dia eu faço uma aposta. As pessoas nadam em suas próprias mentiras. Passam por cima do sol para angariar o que lhes é aprazível. E seguem insones. As cabeças cansadas já não cabem mais nos travesseiros de costume. As palpebras pesam à medida dos anos. As pessoas seguem pisando em seus chãos, em seus céus, em seus sóis e em si mesmas. E se martirizam a cada segredo guardado na estante sustentada em madeira e remorso. As pessoas passam a vida tentando ficar impunes enquanto eu almejo apenas ficar imune a todas elas. E quando já não há mais espaço entre madeira e remorso, as pessoas tentam outros travesseiros que abracem generosamente suas cabeças cheias de culpa. E se aproximam umas das outras em busca de perdão, em busca de algo que as leve à redenção. E seguem cegas e insones. À procura de seus travesseiros imaginários. E adoecem envenenadas por seus próprios segredos. Todo dia eu faço uma aposta. Enquanto as pessoas morrem afogadas na piscina de mentiras que cultivam em seus quintais. As cabeças são grandes demais para as fôrmas dos travesseiros vendidos nas lojas. E pesam. Pesam a medida dos anos. E quando estendo a mão a alguém é quase sempre um lapso. Cada aceno em direção ao outro é risco de queda livre. E sempre aceno. E sempre despenco. Mas meu consolo é minha estante. Sustentada em madeira e fé. E meu travesseiro tem a medida de minha cabeça: leve. E ainda assim, todo dia eu faço uma aposta. E todo dia eu perco.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Humberto Gessinger
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 8
4 de julho de 2009
“…Parecia que era minha aquela solidão…”
Chegava em casa e dava de cara com a solidão. Esparramada no sofá, impondo-lhe canais de tv, ocupando os espaços da sala, incomodando o quanto podia. Aquele convívio estava ficando impossível. Alguém ia ter que sair. A casa já era muito pequena. Era muita audácia tomar para si a cozinha, o quarto e o banheiro. Bagunceira, barulhenta, folgada era a solidão. E comilona também. Tomava os iogurtes todos de uma vez. Mal-educada ainda arrotava. A solidão era mais que uma hóspede, era sua sombra em excelência. Do alto da jaboticabeira vivia a escritora, a questionar lá com seus botões, que diabo de escolha havia feito. Bastava pensar em sair de casa, pronto, tudo nela se derramava em motivos para não fazê-lo. Não ia ao teatro porque o dia se fazia quente, não visitava parentes para não lhes dar trabalho, não frequentava festas ja que, claro, não saberia o que vestir. Seu pensamento nem atravessava as portas que dão pra rua, que dirá seus pés. Resignada, tentava apenas se acomodar no pouco espaço que ainda lhe restava. Sua solidão era a pior colega de quarto que já tivera.
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*Autoria: Maíra Viana
*Citação em Aspas: Humberto Gessinger
*Texto registrado e protegido pela Biblioteca Nacional.
Crave a sua mensagem no tronco da árvore: 10